
Em política, divergências são naturais. O que não deveria ser natural é transformar a estrutura partidária em instrumento de perseguição contra quem exerce legitimamente o seu mandato e toma decisões políticas de acordo com sua consciência.
É justamente essa a situação que vem chamando a atenção em Ibirataia. O vereador Lucas Grandão, do PSB, está sendo alvo de um procedimento interno instaurado pelo próprio partido, sob acusação de infidelidade partidária por ter supostamente apoiado um candidato que não pertence à legenda, mesmo antes do início da campanha.
A pergunta que fica é simples: por que essa regra estaria sendo aplicada a Lucas Grandão como se fosse uma exceção, quando existem situações envolvendo integrantes do próprio grupo político que também precisam ser analisadas?
Todos se lembram que o próprio presidente do partido e seu filho, hoje eleito vice-prefeito, apoiaram candidatos na última eleição que faziam e fazem oposição ao PSB.

E há ainda outro ponto que merece ser esclarecido: nas eleições municipais, o próprio denunciante que hoje apresenta uma representação contra o vereador Lucas Grandão não teria apoiado o candidato do seu próprio partido, tendo declarado apoio ao candidato adversário.

Porque, quando uma regra é utilizada contra um filiado, mas situações semelhantes envolvendo outros integrantes não recebem o mesmo tratamento? Surge inevitavelmente uma dúvida legítima sobre a existência de dois pesos e duas medidas
Lucas Grandão não deveria ser tratado como inimigo pelo próprio partido simplesmente porque se manteve na mesma posição política que compartilhava com os mesmo que agora buscam lhe prejudicar.
A política municipal é feita, sobretudo, de confiança.
Um potencial candidato que esteja avaliando se filiar a um partido certamente observará como aquela legenda trata seus filiados. Principalmente aqueles que já possuem mandato, liderança e representação popular.
Partido forte não é partido que precisa intimidar seus próprios vereadores. Partido forte é partido que sabe conviver com divergências e construir unidade sem transformar adversários internos em inimigos.
O PSB de Ibirataia terá que refletir sobre qual mensagem pretende transmitir aos atuais e futuros filiados.
Porque, se um vereador eleito pelo partido passa a enxergar a própria estrutura partidária como uma ameaça ao exercício de sua atividade política, outros nomes podem pensar duas vezes antes de colocar seu nome à disposição da legenda.
Politicamente, a tentativa de pressionar Lucas Grandão pode estar produzindo um resultado diferente daquele imaginado por seus adversários.
O vereador continua se apresentando à população não como alguém que abandonou seus princípios, mas como alguém que está defendendo sua liberdade política, seu direito de se posicionar e sua legitimidade para representar os eleitores que o escolheram.
Porque cobrar fidelidade de um filiado é legítimo. O que não pode ser legítimo é cobrar aquilo que não se pratica e ainda usar dois pesos e duas medidas para os demais suplentes e filiados.
Perseguir politicamente um vereador pode até parecer uma demonstração de força. Na política, porém, também pode ser interpretado como demonstração de fraqueza.
E, para quem pretende montar uma chapa competitiva nas próximas eleições, talvez não exista mensagem pior do que aquela que faça um futuro candidato pensar duas vezes antes de vestir a camisa do partido.
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